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terça-feira, 28 de agosto de 2018

Conectar negócios de impacto e investidores ainda é desafio para aceleradoras

Matéria divulgada originalmente em Notícias de Impacto e autorizado reprodução pela Entrepreneur Data

Evento da ANDE em São Paulo com aceleradoras e incubadoras (foto divulgação)

Por
Ana Mathias (ANDE), Rebeca Rocha (ANDE) e Brent Ruth (Emory University)
Esta é uma das seis reflexões do Global Accelerator Learning Initiative (GALI) sobre o cotidiano das aceleradoras no Brasil
Na última década, o setor de aceleração vem crescendo mundialmente. Há cada vez mais organizações focadas em alavancar negócios, estruturar ideias e prepará-las para o mercado. Com o propósito de compreender o impacto que essas organizações podem gerar no setor empreendedor, a Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) e a Emory University criaram em 2015 o Global Accelerator Learning Initiative (GALI), para analisar globalmente, por meio de dados científicos, o impacto dos programas de aceleração nos negócios.

No Brasil, a aceleração também ganhou força nos últimos anos. Segundo estudo realizado pela ANDE em 2016, a maioria das organizações mapeadas como aceleradoras no Brasil foi fundada a partir de 2010.
Em fevereiro de 2018, a ANDE realizou um evento com 17 aceleradoras, incubadoras e organizações de apoio em São Paulo, como Artemisia, BrazilLab, Impact Hub, Quintessa, Startup Farm e Yunus Social Business. Durante o evento foram apresentados os principais insights do GALI e discutidos temas como gestão de pipeline, seleção, conexão, fundraising e desenvolvimento de capacidades. A partir destas discussões surgiram vários insights sobre o cotidiano, desafios e oportunidades do setor de aceleração.
Os seis principais insights que emergiram da conversa são compartilhados abaixo pelo GALI:
1.   Parcerias são fortemente usadas como estratégia pelas aceleradoras para atrair novos negócios
Além de parcerias com universidades, mídia e investidores para conseguir alcançar novos públicos e atrair novos negócios para seus programas, outras estratégias que funcionaram para as aceleradoras e incubadoras foram mídias digitais e de massa, boa rede de mentores, participação em eventos e associações, tutores dedicados a cada negócio e indicacões. Por outro lado, as aceleradoras destacaram como estratégias que não funcionaram tão bem a utilizacão de plataformas de email marketing para um número pequeno de contatos, a utilizacão de comunicação muito abrangente sem um recorte específico e esperar por atracão orgânica de negócios para as inscrições.
Conforme alguns dados coletados pelo GALI1 de programas de aceleração no mundo todo, 60% dos programas implementam ou realizam programas em parceria com pelo menos uma outra organização. Estes parceiros podem ajudar a atrair negócios e potenciais investidores, ou simplesmente por meio do aumento da qualidade e quantidade de pipelines dos programas.
2.   Apesar da grande disseminação do conceito de aceleração e da cultura empreendedora, atrair negócios que se encaixem com o perfil da aceleradora e que tenham maior maturidade ainda é um desafio
Apesar do importante papel das universidades no estímulo ao empreendedorismo, as incubadoras e aceleradoras ainda têm dificuldades de encontrar negócios com o perfil certo para seus programas. Além disso, as aceleradoras e incubadoras que são focadas em negócios de impacto social2 – destacaram como dificuldade o fato da definicão de impacto muitas vezes não ser clara e ser de difícil apresentação para o mercado.
3.   Critérios claros são fundamentais para a seleção de bons negócios
Dentre as estratégias que as aceleradoras mencionaram como uma boa prática está a criação de um processo de selecão claro, baseado em fases, com critérios e regras bem definidas. Além disso, recomendam realizar entrevistas com o empreendedor e avaliar também a equipe do negócio durante o processo. Estes dados estão de acordo com as tendências internacionais, pois 91% dos programas parceiros do GALI realizam entrevistas como parte de seus processos de seleção. Além disso, uma equipe promissora e de qualidade é o foco do processo de seleção de 29% dos programas analisados.
4.   O uso de plataformas EAD é cada vez mais utilizado para formar empreendedores
Seguindo uma tendência na educação, a utilização de recursos EAD para auxiliar na formação dos empreendedores foi tanto apontada como um recurso já utilizado por algumas aceleradoras, quanto um recurso a ser implementado por outras. A possibilidade de realizar partes dos programas de aceleração de forma remota também é uma tendência global. 87% dos parceiros do GALI incluíam alguma parcela de participação remota. No entanto, programas totalmente remotos não são amplamente utilizados, com apenas 3% dos programas acontecendo desta forma.
Além da utilização de plataformas EAD, outros serviços oferecidos mais citados foram: conexão com mentores, cursos, consultorias, grupos de aprendizagem coletivos, suporte financeiro, mentorias em temas específicos como jurídico e impacto social, reuniões semanais para apoiar os empreendedores em seus desafios, acelerar e apoiar relacões com clientes e fornecedores.
5.   Apesar de ser um diferencial, as aceleradoras ainda encontram dificuldades em conectar negócios e investidores
Apenas 12% dos programas parceiros do GALI globalmente reportaram a conexão entre negócios e investidores como um benefício de seu programa. Esta dificuldade se repete no Brasil, pois apesar de alguns programas de aceleração já oferecem essa oportunidade, os participantes do evento ressaltaram a dificuldade em encontrar o investidor certo para cada negócio, demonstrar o ROI dos negócios para esses investidores e como mensurar seu impacto. Outros desafios estão relacionados à esfera legal brasileira como a falta de leis que incentivem o investimento em novos negócios.
6.   O acompanhamento dos negócios após a aceleração ainda é um desafio
Por fim, quando os negócios terminam o programa de aceleração, fica mais difícil manter as relações com o empreendedor para acompanhar o negócio, seus resultados e impacto. Esse fator dificulta, por exemplo, a mensuração do impacto do programa de aceleração nos negócios que por eles passaram. Globalmente, alguns programas de aceleração encontraram saída para este desafio oferecendo alguns serviços de suporte pós-aceleração com construção de networking e exposicão na mídia. Estes serviços podem facilitar a continuidade do relacionamento com os negócios.
Notas
1 Entre 2016 e 2017, o GALI coletou informações sobre 115 programas de aceleração parceiros no mundo todo, trazendo um panorama das características dos programas de aceleração participantes do projeto. Os dados do GALI mencionados neste texto são fruto desta coleta.
2 “Negócios de Impacto são empreendimentos que têm a missão explícita de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que geram resultado financeiro positivo e de forma sustentável” (Forca Tarefa de Finanças sociais, s/d). Segundo o relatório “Avanço das recomendações e reflexões para o fortalecimento das Finanças Sociais e Negócios de Impacto no Brasil”, de 2016, ao menos 10% das incubadoras e aceleradoras do Brasil declararam que os negócios de impacto formam parte importante de seus portfólios e mensuram de alguma forma seu impacto social. Enquanto isso, no cenário global 51% dos programas parceiros do GALI possuem um foco específico em impacto social.
Referências:
Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE). O Panorama das Aceleradoras e Incubadoras no Brasil, 2016. Disponível em https://www.galidata.org/publications/landscape-study-of-accelerators-and-incubators-in-brazil/
Força Tarefa de Finanças Sociais. Avanço das recomendações e reflexões para o fortalecimento das Finanças Sociais e Negócios de Impacto no Brasil, 2016. Disponível em http://ice.org.br/wp- content/uploads/2017/02/Relatorio_2016_FTFS.pdf
Força Tarefa de Finanças Sociais. O que São Negócios de Impacto, s/d. Disponível em https://forcatarefafinancassociais.org.br/o-que-sao-negocios-de-impacto/>
Sobre 
Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE) é uma rede internacional de organizacões que impulsionam o empreendedorismo em mercados emergentes. Nossos membros oferecem serviços críticos de financiamento, capacitação e assistência técnica para “Small & Growing Businesses”, ou apoiam o crescimento do campo como um todo. Acreditamos que essas empresas têm a capacidade de gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais, contribuindo para o desenvolvimento sustentável do Brasil e de outros países emergentes.
Social Enterprise @ Goizueta é um centro de pesquisa da escola de negócios da Universidade Emory que visa gerar impacto social, fazendo com que os mercados trabalhem para mais pessoas, em mais lugares, de diversas formas, através de pesquisa acadêmica, de programas de trabalho de campo e do engajamento estudantil. As atividades da SE@G buscam entender o que funciona na aceleração de empreendedores em países em desenvolvimento, impulsionam a vitalidade da comunidade em Atlanta por meio do desenvolvimento de micronegócios, aumentando a transparência nos mercados de cafés especiais, fortalecendo as comunidades de cafeicultores e desenvolvendo a próxima geração de líderes de empresas sociais.
Global Accelerator Learning Initiative (GALI), é uma parceria de pesquisa entre a Escola de Negócios Goizueta da Emory University e a Aspen Network of Development Entrepreneurs (ANDE). Esta parceria foi formada para estudar o impacto dos programas de aceleração em negócios em estágio inicial. Como parte dessa iniciativa, a Emory gerencia o Programa de Banco de Dados para o Empreendedorismo (EDP), que ajuda as aceleradoras a rastrear o impacto que estão gerando nos negócios que apoiam, enquanto a ANDE opera Global Accelerator Survey que mapeia as aceleradoras pelo mundo, seus diferentes formatos e características.


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